PEI para autismo: como fazer o Plano Educacional Individualizado, com modelo
O que mudou com o Decreto 12.686/2025, quem participa do PEI, um passo a passo em seis etapas e um modelo preenchido em tabela para adaptar ao seu aluno.
Neste artigo
- O que é o PEI para autismo
- É obrigatório fazer o PEI para autismo?
- Quem faz o PEI
- Como fazer o PEI para autismo passo a passo
- Modelo de PEI para autismo preenchido
- Erros que esvaziam o PEI
- O que a pesquisa brasileira mostra sobre o PEI
- Por onde começar o PEI na próxima semana
- O essencial em quatro linhas
- O que ainda está em aberto
Toda escola que recebe um aluno autista chega à mesma pergunta: como fazer o PEI para autismo sem que ele vire mais um formulário preenchido em fevereiro e esquecido na gaveta até dezembro? A dúvida ficou mais urgente porque, desde o fim de 2025, o plano individualizado deixou de ser boa prática e passou a ser exigência nacional.
O que você vai encontrar aqui
- O que o Decreto 12.686/2025 mudou e o que passou a ser obrigatório
- Quem participa da elaboração e o que cabe a cada pessoa
- Um passo a passo em seis etapas, do estudo de caso à revisão
- Um modelo de PEI para autismo preenchido, em tabela, para adaptar
Ao terminar a leitura, você consegue montar um PEI a partir do que observa em sala, escrever metas que dá para medir e marcar a data em que o plano será revisto.
O que é o PEI para autismo
O PEI, Plano Educacional Individualizado, é o documento pedagógico que registra o que um estudante específico precisa para acessar o currículo da turma: metas, estratégias, recursos, responsáveis e forma de acompanhamento. No PEI para autismo, o ponto de partida são as potencialidades e as barreiras observadas na escola, e não o laudo.
O PEI não é currículo paralelo, porque as metas conversam com o que a turma aprende. Também não é plano terapêutico: a escola ensina, não faz terapia.
Ele também não se confunde com o PAEE, o Plano de Atendimento Educacional Especializado. O PAEE nasceu para organizar o atendimento na sala de recursos; o PEI costuma detalhar o que muda na sala comum. Pelo decreto federal, os dois nascem do mesmo estudo de caso e orientam tanto a sala comum quanto o AEE.
É obrigatório fazer o PEI para autismo?
Sim, para o estudante público da educação especial. O Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025, criou a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva e tornou obrigatório o PAEE. Em 8 de dezembro, o Decreto nº 12.773 mudou a redação: passou a ser obrigatório um documento individualizado, pedagógico e com atualização contínua, "como PAEE e o PEI", que derive do estudo de caso.
O texto está no art. 12 do Decreto 12.686/2025, com a redação dada pelo Decreto 12.773/2025. Ali também está que os dois planos integram o projeto político-pedagógico e orientam a sala comum, o AEE, o trabalho colaborativo e a articulação intersetorial.
Vale para o estudante autista porque a Lei 12.764/2012, a Lei Berenice Piana, considera a pessoa com TEA pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. E a Lei Brasileira de Inclusão, no art. 28, já pedia projeto pedagógico com adaptações razoáveis e planejamento de estudo de caso. Nas escolas particulares, a LBI proíbe cobrar valor adicional por essas medidas.
Outro ponto do decreto muda a rotina de muita escola: o AEE não pode ser condicionado a diagnóstico, laudo ou relatório de profissional de saúde (art. 11, § 7º). O plano começa pela observação pedagógica, com ou sem laudo.
A mudança é recente. Em 2018, uma comparação entre quatro países, publicada por Tannús-Valadão e Mendes na Revista Brasileira de Educação, concluía que o Brasil não tinha dispositivo legal que garantisse um PEI baseado nas peculiaridades de cada estudante. O decreto preenche essa lacuna.
Quem faz o PEI
O PEI é feito em equipe. Participam o professor da sala comum, o professor do AEE, a coordenação pedagógica, a família e, sempre que possível, o próprio estudante. Profissionais de saúde podem contribuir com informações, mas o documento é pedagógico e a responsabilidade por executá-lo é da escola.
O decreto exige que estudante e família participem de todo o estudo de caso, contando o que já funcionou e acompanhando o plano (art. 11, § 3º). Quando necessário, a escola dialoga com saúde, assistência social e órgãos de proteção à criança (§ 4º).
Uma divisão de tarefas que costuma funcionar:
- Professor da sala comum: observa, registra e propõe as metas ligadas ao currículo da turma.
- Professor do AEE: conduz o estudo de caso, indica recursos de acessibilidade e garante que PEI e PAEE conversem.
- Coordenação: marca as reuniões, guarda o documento e cobra a revisão.
- Família: conta como o estudante se comunica, o que acalma e o que assusta.
- Estudante: diz, do jeito dele, o que ajuda e o que atrapalha.
Como fazer o PEI para autismo passo a passo
O caminho tem seis etapas: fazer o estudo de caso, registrar potencialidades, escolher poucas metas observáveis, definir estratégias e recursos, combinar responsáveis e marcar a revisão com critério de sucesso. A ordem importa, porque meta escrita antes da observação costuma ser genérica e impossível de medir.
1. Faça o estudo de caso
O decreto descreve quatro etapas: identificar demandas e barreiras, analisar o contexto escolar, identificar potencialidades e apoios necessários e definir recursos de acessibilidade. Na prática, são duas ou três semanas de registro curto: data, situação, o que aconteceu, o que ajudou.
2. Registre potencialidades e interesses
Comece pelo que o aluno faz bem. Interesse por dinossauros, memória visual, gosto por números: tudo vira porta de entrada para conteúdo. PEI que só lista dificuldades produz metas de correção.
3. Escolha poucas metas, escritas de forma observável
Três a cinco metas por período bastam. Cada uma precisa de comportamento, condição e critério. "Melhorar a comunicação" não serve. "Pedir ajuda usando o cartão de ajuda, sem apoio do adulto, em 4 de 5 atividades de escrita" serve, porque qualquer pessoa consegue verificar.
4. Defina estratégias e recursos para cada meta
Para cada meta, o que muda na aula: rotina visual, antecipação de mudanças, comunicação alternativa, tarefa dividida em partes, material concreto, tempo extra, lugar com menos ruído. Há ideias no guia de atividades para autistas organizadas por área.
5. Combine responsáveis e onde cada coisa acontece
Cada estratégia tem dono e lugar: sala comum, AEE, recreio, casa.
6. Marque a revisão e o jeito de medir
Bimestral é um bom ritmo. Defina como medir antes de começar: contagem simples, amostra de caderno, registro em tabela. Na revisão, meta atingida sobe de nível, meta parada muda de estratégia.
Esse ciclo de observar, planejar, intervir e medir é a espinha do Protocolo Inclusão Real, que a pós em TEA da FASAMAR trabalha no módulo dedicado ao PEI, com estudo de caso real e devolutiva.
Modelo de PEI para autismo preenchido
Abaixo está um modelo de PEI para autismo preenchido com uma situação hipotética. Use como estrutura, não como texto pronto: cada campo precisa sair da observação do seu aluno. A tabela mostra área, meta, estratégia, responsável e forma de medir, e cabe numa página impressa.
Imagine um aluno de 8 anos, no 3º ano do ensino fundamental, chamado aqui de L. Ele fala frases curtas, lê palavras simples, adora mapas e se desorganiza em mudanças de atividade sem aviso e no barulho do refeitório.
Identificação: L., 8 anos, 3º ano, turma B. Período do plano: 1º bimestre. Equipe: professora regente, professora do AEE, coordenadora, responsável familiar. Data da próxima revisão: última semana do bimestre.
Potencialidades: memória visual forte, interesse por mapas e bandeiras, segue rotina visível, gosta de tarefas com começo e fim claros.
| Área | Meta do bimestre | Estratégias e recursos | Responsável | Como medir |
|---|---|---|---|---|
| Comunicação | Pedir ajuda com o cartão de ajuda, sem apoio do adulto, em 4 de 5 atividades de escrita | Cartão fixo na mesa; modelagem nas duas primeiras semanas; elogio específico quando usar | Regente e AEE | Contagem semanal em tabela |
| Rotina e transições | Trocar de atividade com aviso de 2 minutos e quadro visual, sem sair da sala, em 8 de 10 trocas | Quadro de rotina na lousa; timer visual; aviso verbal curto | Regente | Registro diário de trocas |
| Leitura | Ler 20 palavras dissílabas do repertório da turma com apoio de imagem | Fichas com palavras de mapas e países; jogo de pareamento palavra e imagem | AEE e regente | Lista de checagem quinzenal |
| Matemática | Resolver adições até 20 com material concreto | Material dourado; problemas com bandeiras e distâncias de mapas | Regente | Amostra de caderno |
| Participação social | Trabalhar em dupla por 10 minutos com papel definido | Cartão com o papel de cada um; dupla fixa no início | Regente | Observação em 2 aulas por semana |
| Regulação | Pedir pausa com cartão e voltar em até 5 minutos | Canto calmo na sala; abafador no refeitório | Regente e família | Registro de pausas |
O que a família faz em casa: usa o mesmo cartão de pausa e conta, no caderno de recados, quando houve noite mal dormida ou mudança na rotina.
Proteção de dados: o plano fica com a coordenação e circula só entre quem trabalha com o aluno. O próprio decreto manda observar a LGPD, com atenção ao tratamento de dados de crianças (art. 12, § 5º).
Na revisão, o registro é curto: "Comunicação: usou o cartão em 3 de 5 atividades. Manter a meta e retirar a modelagem aos poucos."
Erros que esvaziam o PEI
Os erros mais comuns são copiar trechos do laudo, escrever metas vagas, deixar o plano só com o AEE, esquecer a data de revisão e incluir objetivos clínicos. Todos produzem um documento que existe no papel e não muda nada na segunda-feira de manhã.
- Copiar o laudo. O laudo descreve um diagnóstico. O PEI descreve o que fazer na escola.
- Meta sem critério. "Socializar mais" não tem como ser avaliada.
- Plano de uma pessoa só. Se a regente não participou, a meta não chega à sala comum.
- Objetivo de terapia. Reduzir ecolalia ou "tratar" seletividade alimentar não é papel da escola. Ensinar a pedir, esperar, escolher e participar é.
O que a pesquisa brasileira mostra sobre o PEI
Nas pesquisas brasileiras, o problema raramente é falta de vontade: faltam modelo e formação. Quando professores constroem o PEI junto com pesquisadores e recebem formação, o documento ganha forma e passa a ser usado. Sem isso, o planejamento acaba girando em torno dos serviços disponíveis, e não do aluno.
Um estudo de Pereira e Nunes, publicado em 2024 na Revista Educação em Questão, constatou que as escolas da rede estadual do Rio Grande do Norte não tinham modelo de PEI, e questionários com 23 docentes revelaram lacunas de formação sobre TEA. Depois de um curso, professores e pesquisadores criaram juntos um modelo, validado por 18 juízes, que serviu de base para o sistema de gestão do estado.
Quiz rápido
Teste rápido: você montaria um PEI que sai do papel?
Um minuto de perguntinhas. Será que você termina sem errar nenhuma?
0 de 5 certas
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1. Desde 2025, o que a norma federal diz sobre o PEI?
O Decreto 12.686/2025, com a redação do Decreto 12.773/2025, torna obrigatório um documento individualizado de natureza pedagógica, como o PAEE e o PEI, que deriva do estudo de caso e compõe o projeto político-pedagógico da escola.
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2. A escola pode exigir laudo antes de começar o PEI e o AEE?
O art. 11, § 7º, do Decreto 12.686/2025 proíbe condicionar o AEE a diagnóstico, laudo ou relatório de profissional de saúde. O PEI parte do estudo de caso, que é pedagógico.
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3. Qual destas é uma meta bem escrita para um PEI?
Meta boa tem comportamento, condição e critério. Assim qualquer pessoa da equipe consegue verificar se ela foi atingida. Frases como melhorar ou socializar mais não têm como ser medidas.
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4. Quem deve participar da elaboração do PEI?
O PEI é trabalho de equipe, e o decreto garante a participação do estudante e da família em todo o estudo de caso. A saúde pode contribuir, mas o documento é pedagógico e a escola responde por ele.
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5. Qual destes itens NÃO deveria estar no PEI?
O PEI é pedagógico. Dados de saúde são sensíveis pela LGPD e o próprio decreto pede atenção ao tratamento de dados de crianças. Potencialidades, estratégias e data de revisão são o coração do plano.
Por onde começar o PEI na próxima semana
Não espere a reunião perfeita. Comece com duas semanas de registro, escolha três metas observáveis e marque a revisão no calendário. O PEI que funciona é o que a regente consegue consultar no meio da aula, sem precisar de tradução.
Se o aluno vai mudar de professor no meio do ano, o plano revisado e um relatório pedagógico bem escrito são o que evita recomeçar do zero.
O essencial em quatro linhas
- Desde o Decreto 12.773/2025, um plano individualizado como o PEI é obrigatório, deriva do estudo de caso e integra o projeto político-pedagógico.
- Laudo não é pré-requisito: o plano nasce da observação pedagógica.
- Poucas metas, com comportamento, condição e critério, valem mais que uma lista longa.
- Sem data de revisão e forma de medir, o plano não sai do papel.
O que ainda está em aberto
O decreto é de 2025, e muita coisa depende de regulamentação e de como cada rede vai organizar seus modelos. Alguns estados já usam sistemas digitais, como o do Rio Grande do Norte. Ainda não há pesquisa nacional sobre quantas escolas cumprem a exigência nem sobre o efeito do PEI na aprendizagem em larga escala.
Outra frente é usar inteligência artificial para redigir planos, o que exige cuidado com dados de saúde de criança. O texto sobre IA na educação inclusiva discute o que dá para fazer sem expor o aluno. E o PEI serve a um movimento maior: adaptar a escola à criança, e não o contrário.
Perguntas frequentes
É obrigatório fazer PEI para aluno autista?
Sim. O Decreto 12.686/2025, com a redação do Decreto 12.773/2025, torna obrigatório um documento individualizado de natureza pedagógica, como o PAEE e o PEI, derivado do estudo de caso. Como a Lei 12.764/2012 considera a pessoa com TEA pessoa com deficiência, a regra alcança o estudante autista.
Quem é responsável por fazer o PEI na escola?
O PEI é feito em equipe: professor da sala comum, professor do AEE, coordenação, família e, quando possível, o próprio estudante. Profissionais de saúde podem contribuir com informações, mas a responsabilidade por elaborar e executar o plano é da escola.
Precisa de laudo para fazer o PEI?
Não. O decreto proíbe condicionar o AEE a diagnóstico, laudo ou relatório de profissional de saúde. O PEI nasce do estudo de caso, que é pedagógico e parte da observação do estudante na escola.
Como escrever uma meta no PEI para autismo?
A meta precisa dizer o comportamento, a condição e o critério de sucesso. Por exemplo: pedir ajuda com o cartão, sem apoio do adulto, em 4 de 5 atividades de escrita. Três a cinco metas por período costumam bastar.
De quanto em quanto tempo o PEI deve ser revisado?
O decreto fala em atualização contínua, sem fixar prazo. Uma revisão por bimestre é um ritmo que funciona bem, com registro curto de meta, resultado e decisão: manter, avançar ou mudar a estratégia.
Núcleo de Pedagogia FASAMAR
Conteúdo do Núcleo de Pedagogia da FASAMAR, Faculdade São Marcos, instituição credenciada pelo MEC desde 2002 (Portaria nº 3.908). Responsável: Profa. Coorda. Susana Roman Blanco Pérez. Os artigos têm caráter educativo e não substituem a avaliação de um profissional habilitado.