Atividades para autistas não verbais: comunicação alternativa na prática
Dez atividades para autistas não verbais com comunicação alternativa, como montar uma prancha simples e o que a pesquisa diz sobre CAA, PECS e fala.
Neste artigo
- O que significa ser autista não verbal
- O que é comunicação alternativa e por que ela não atrapalha a fala
- PECS na escola: o que é e o que esperar
- 10 atividades para autistas não verbais em sala comum
- Como montar uma prancha de comunicação simples
- Erros que fazem as atividades para autistas não verbais pararem de funcionar
- O que muda na sala quando a criança consegue se comunicar
- O essencial em quatro linhas
- O que a pesquisa ainda está tentando entender
Um aluno que não fala também tem o que dizer. O desafio de quem procura atividades para autistas não verbais é outro: dar a essa criança um jeito de pedir, recusar, comentar e perguntar que funcione na sala cheia, no recreio e em casa, e não só na sessão de terapia.
O que você vai encontrar aqui
- O que "não verbal" quer dizer, e por que não é o mesmo que "não entende"
- O que a pesquisa diz sobre comunicação alternativa e fala, com números de quem mediu
- 10 atividades com prancha, figuras e PECS para fazer em sala comum
- Um passo a passo para montar a primeira prancha de comunicação e os erros que a fazem parar na mochila
Ao final, você consegue montar uma prancha básica, escolher atividades em que a criança precisa se comunicar de verdade e explicar para a família por que a comunicação alternativa não "tira a vontade de falar".
O que significa ser autista não verbal
Significa usar pouca ou nenhuma fala para se comunicar. Não significa falta de compreensão, de vontade de interagir ou de inteligência. Há crianças que falam pouco e entendem muito; outras precisam de apoio nas duas coisas. Por isso a escola parte do princípio de que a criança é capaz, e oferece outros meios de expressão.
A pesquisa usa também o termo "minimamente verbal", para quem tem algumas palavras ou frases prontas, mas não usa a fala de forma flexível. Na revisão de Tager-Flusberg e Kasari, publicada em 2013 na Autism Research, as autoras estimam que cerca de 30% das crianças autistas chegam à idade escolar nessa situação. O mesmo texto registra que algumas crianças com pouca fala expressiva têm boa compreensão da linguagem, e que testes tradicionais dependem de respostas que essas crianças nem sempre conseguem dar.
Na prática, isso muda a forma de conversar. Fale com a criança, e não sobre ela na frente dela. Ofereça escolhas reais. E desconfie da conclusão "ele não entende" quando o que falta é um jeito de mostrar que entende.
O que é comunicação alternativa e por que ela não atrapalha a fala
Comunicação aumentativa e alternativa, a CAA, é qualquer forma de comunicar sem depender só da fala: gestos, sinais, figuras, pranchas, aplicativos e dispositivos com voz. Ela não substitui a fala nem impede que ela apareça. Para muitas crianças, é a primeira vez que comunicar funciona.
A Lei Brasileira de Inclusão incorpora isso. Na Lei 13.146/2015, a definição de comunicação, no art. 3º, inciso V, inclui expressamente "os modos, meios e formatos aumentativos e alternativos de comunicação", e o art. 28 prevê ensino e uso de recursos de tecnologia assistiva para ampliar a autonomia do estudante.
O medo mais comum das famílias é que a prancha "acomode" a criança. A pesquisa não sustenta esse medo. Uma meta-análise de Millar, Light e Schlosser (2006) analisou estudos publicados de 1975 a 2003, com participantes em sua maioria com deficiência intelectual ou autismo. Nos 27 casos com rigor suficiente, nenhum teve queda de fala depois da intervenção com CAA, 11% não mudaram e 89% tiveram algum ganho, em geral modesto.
A revisão de Hume e colegas (2021), que reuniu 28 práticas com evidência para pessoas autistas, colocou a comunicação aumentativa e alternativa como categoria própria, com recursos de apoio (prancha, caderno, dispositivo) e sem apoio (sinais).
PECS na escola: o que é e o que esperar
PECS é um sistema de comunicação por troca de figuras: a criança entrega o cartão a alguém para conseguir o que quer. Ele ensina a iniciar a comunicação, que costuma ser a parte mais difícil. A promessa honesta é essa: mais iniciativa para se comunicar, não a fala garantida.
O sistema é ensinado em fases, que vão da troca de uma figura por um objeto desejado até montar frases com "eu quero" e comentar o que vê. A aplicação completa pede formação específica, de preferência com acompanhamento da fonoaudiologia.
Segundo Tager-Flusberg e Kasari, o único ensaio randomizado que incluiu crianças acima de cinco anos foi o de Howlin e colegas (2007), com 84 crianças de 4 a 10 anos. Nas turmas em que professores, famílias e equipe foram treinados, as crianças passaram a iniciar mais comunicação usando PECS, mas não houve efeito principal sobre a fala. Ou seja: PECS serve para comunicar, e isso já é muito.
10 atividades para autistas não verbais em sala comum
As melhores atividades para autistas não verbais criam um motivo real para comunicar: algo que a criança quer, uma escolha que muda o que acontece, uma pausa que só ela pode pedir. Folha de colorir não cria esse motivo. Abaixo, dez propostas que entram na rotina da turma sem exigir uma aula à parte.
- Caixa de pedidos. Brinquedos preferidos em potes transparentes, fáceis de ver e difíceis de abrir. A criança entrega a figura e recebe o item na hora. É o ponto de partida do PECS.
- Prancha do lanche. Fotos dos itens do lanche daquele dia. Antes de servir, espere a escolha. Se ela pegar o item direto, mostre a figura e aguarde alguns segundos.
- Bolhas de sabão com "mais" e "parar". Sopre, pare e espere. O cartão de "mais" faz a brincadeira continuar. Poucas atividades ensinam tão rápido que comunicar funciona.
- Rotina visual com "acabou". Fotos das etapas do dia na parede e um envelope de "acabou" para a criança guardar cada uma. A rotina visual dá previsibilidade e vocabulário ao mesmo tempo.
- Cartão de pausa. Ensine, num momento calmo, que entregar o cartão dá direito a dois minutos no canto combinado. É a alternativa comunicativa ao choro, ao empurrão ou à fuga.
- Sim e não com perguntas verdadeiras. "Quer massinha?" com a massinha na mão. Comece com a resposta óbvia e só depois passe para perguntas abertas. Não use para testar conhecimento.
- Música com cartão. Na roda, pare a música e mostre o cartão de "de novo". Funciona com a turma inteira, e os colegas aprendem a esperar a resposta.
- Leitura compartilhada com prancha do livro. Figuras dos personagens e objetos da história presas ao lado do livro. A criança aponta enquanto você lê. Essa é a porta de entrada das atividades de alfabetização para autistas.
- Caderno de ida e volta. Fotos do que aconteceu na escola para a criança mostrar em casa, e espaço para a família colar o que aconteceu no fim de semana. A conversa da segunda de manhã fica possível.
- Modelagem na prancha. Ao falar com a criança, aponte você também as figuras: "agora (aponta) parque". Ninguém aprende uma língua que nunca vê os outros usando.
Como montar uma prancha de comunicação simples
Comece pequeno e útil: seis a doze figuras que a criança vai usar todo dia, presas em posição fixa, com a prancha sempre ao alcance. A prancha boa não é a mais bonita, é a que está na carteira, no recreio e na mochila, e que os adultos também usam.
Passo a passo:
- Observe o que a criança já busca. Comida, brinquedo, pessoa, lugar. Essas são as primeiras figuras.
- Inclua palavras de função. "Mais", "parar", "ajuda", "não", "acabou" servem em qualquer atividade e rendem muito mais que nomes de objetos.
- Escolha o tipo de imagem. Foto do objeto real para quem está começando; símbolo desenhado quando a criança já reconhece figuras.
- Fixe a posição. Cada figura sempre no mesmo lugar. A criança aprende a localizar, como nós aprendemos o teclado.
- Deixe a prancha com a criança. Num cordão, preso na carteira, colado na porta do refeitório.
- Combine com a família e com a fonoaudiologia. Mesmo vocabulário em casa, na escola e na terapia.
| Palavra | Quando ensinar | Exemplo |
|---|---|---|
| Mais | Brincadeira que a criança adora | Bolhas, balanço, cócegas |
| Parar | Algo que incomoda, com respeito imediato | Barulho, toque, brincadeira longa |
| Ajuda | Tarefa que ela não consegue sozinha | Abrir a garrafa, fechar o zíper |
| Acabou | Fim de cada etapa da rotina | Guardar a foto no envelope |
Imagine um aluno de 2º ano, Theo, autista e não verbal, que chora toda vez que o recreio acaba. A professora inclui "parque" e "acabou" na prancha, mostra as duas figuras cinco minutos antes do sinal e deixa Theo guardar a figura de "parque" no envelope. Na primeira semana, o choro fica mais curto. Na terceira, ele mesmo pega o cartão de "acabou" ao ouvir o sinal. A situação é hipotética, mas o mecanismo é real: previsibilidade e um jeito de dizer.
Erros que fazem as atividades para autistas não verbais pararem de funcionar
O erro mais comum é tratar a prancha como material de aula, e não como a voz da criança. Ela vai para o armário, só sai na hora da atividade e ninguém além da criança usa. Comunicação que só existe em um lugar e com uma pessoa não generaliza.
Outros tropeços frequentes:
- Exigir a fala antes de atender o pedido. Se ela entregou a figura, ela pediu. Atenda e, se quiser, fale a palavra junto.
- Usar a prancha só para pedidos. Crianças também querem comentar, recusar e chamar atenção para algo.
- Trocar as figuras de lugar toda semana. Destrói a memória de posição.
- Avaliar compreensão só pela fala. Peça respostas por apontar, entregar ou escolher.
- Esquecer os colegas. Mostre para a turma como a prancha funciona. Colegas que esperam a resposta são o melhor reforço.
Montar vocabulário, ensinar troca de figuras e planejar a generalização é o que a pós-graduação em TEA da FASAMAR trabalha no módulo de comunicação e linguagem, com CAA e PECS. E os objetivos de comunicação de cada aluno merecem estar no PEI para autismo, com meta e registro.
Enquete
Onde fica a prancha de comunicação?
Pessoas interessantes sempre respondem essa. E você, de que lado está?
Na escola que você conhece, onde costuma ficar a prancha de comunicação de um aluno não verbal?
É o cenário que o texto defende: a prancha é a voz da criança e precisa estar no recreio, no refeitório e na sala. Vale conferir se os adultos também apontam as figuras ao falar com ela.
Muito comum, e um primeiro passo. O próximo é deixá-la ao alcance do aluno: comunicação que depende de alguém buscar a prancha só acontece quando o adulto quer.
Aí ela vira material de sessão, e a criança não tem como pedir, recusar ou comentar na turma. Combinar o mesmo vocabulário entre AEE, sala comum e família resolve boa parte disso.
Dá para começar pequeno: seis a doze figuras do que a criança já busca, mais 'mais', 'parar', 'ajuda' e 'acabou'. O passo a passo está logo acima.
O que muda na sala quando a criança consegue se comunicar
Muda quase tudo. Comportamentos que pareciam "birra" muitas vezes eram a única forma de dizer "chega", "não quero" ou "me ajuda". Quando a criança ganha outro meio de dizer isso, a sala fica mais previsível para ela e para todo mundo. E a professora passa a saber o que ela pensa.
Não é mágica nem é rápido. Mas é a aposta mais segura que a escola pode fazer: cada pedido atendido ensina que comunicar vale a pena. Para ver como encaixar essas propostas em outros objetivos, como autonomia e interação, vale consultar as atividades para autistas organizadas por objetivo.
O essencial em quatro linhas
- Não verbal descreve o uso da fala, não a capacidade de compreender ou de aprender.
- CAA não impede a fala: na meta-análise de Millar e colegas, nenhum caso teve queda de fala.
- PECS aumenta a iniciativa de comunicar; a fala pode vir ou não, e comunicar já é o objetivo.
- A prancha precisa estar com a criança o dia todo, e os adultos precisam usá-la também.
O que a pesquisa ainda está tentando entender
Tager-Flusberg e Kasari chamam as crianças minimamente verbais de "a ponta negligenciada do espectro": o grupo é muito variado e pouco estudado. As autoras apontam tecnologias como rastreamento do olhar e imagem cerebral para avaliar compreensão sem exigir resposta falada, e o entusiasmo com tablets como dispositivos de voz.
O que ainda não se sabe com segurança é quais crianças vão desenvolver fala e quais vão se comunicar principalmente por CAA ao longo da vida. Por isso a escola não precisa esperar essa resposta: oferecer comunicação agora é útil nos dois cenários.
Perguntas frequentes
Autista não verbal entende o que a gente fala?
Muitas vezes, sim. A revisão de Tager-Flusberg e Kasari registra que algumas crianças com pouca fala têm boa compreensão da linguagem. Por isso a escola fala com a criança, oferece escolhas reais e avalia por apontar ou entregar, e não só pela fala.
Usar prancha de comunicação atrapalha a criança a falar?
Não. Na meta-análise de Millar, Light e Schlosser, nenhum dos 27 casos mais rigorosos teve queda de fala depois da CAA, e 89% tiveram algum ganho. A prancha dá um meio de comunicar enquanto a fala se desenvolve, ou se ela não vier.
O que é PECS e qualquer professor pode aplicar?
PECS é um sistema em que a criança troca figuras para se comunicar, ensinado em fases. A caixa de pedidos e a troca simples cabem na sala, mas a aplicação completa pede formação específica, idealmente com acompanhamento da fonoaudiologia.
Quais atividades para autistas não verbais posso fazer na sala?
Caixa de pedidos, prancha do lanche, bolhas com "mais" e "parar", cartão de pausa, rotina visual com "acabou", música com cartão e leitura com prancha do livro. Todas criam um motivo real para a criança se comunicar.
Quantas figuras colocar na primeira prancha?
Entre seis e doze, escolhidas pelo que a criança já busca, mais palavras de função como "mais", "parar", "ajuda" e "acabou". Cada figura fica sempre no mesmo lugar, e a prancha acompanha a criança o dia todo.
Núcleo de Pedagogia FASAMAR
Conteúdo do Núcleo de Pedagogia da FASAMAR, Faculdade São Marcos, instituição credenciada pelo MEC desde 2002 (Portaria nº 3.908). Responsável: Profa. Coorda. Susana Roman Blanco Pérez. Os artigos têm caráter educativo e não substituem a avaliação de um profissional habilitado.