Atividades de matemática para autistas: do concreto ao abstrato
Atividades de matemática para alunos autistas em sequência, do pareamento aos problemas com texto, com o caminho concreto, figura e número e como adaptar a folha da turma.
Neste artigo
- O que a pesquisa diz sobre ensinar matemática a alunos autistas
- Do concreto ao abstrato: a sequência que organiza as atividades de matemática para autistas
- Atividades de matemática para autistas, etapa por etapa
- Como adaptar a folha de matemática da turma para um aluno autista
- O que fazer na próxima aula de matemática
- O essencial em quatro linhas
- O que a pesquisa ainda precisa responder sobre matemática e autismo
Tem o aluno autista que sabe de cor todos os horários de ônibus da cidade e trava diante de "Maria tinha 5 balas". E tem o que ainda não conta até três, mas organiza os lápis por cor sem errar um. Atividades de matemática para autistas funcionam quando partem do que a criança já faz, e não da página do livro didático em que a turma está.
O que você vai encontrar aqui
- A sequência concreto, figura e número aplicada a cada conteúdo, com exemplo de sala
- Atividades em seis etapas, do pareamento aos problemas com texto
- Uma tabela para adaptar a folha da turma sem criar uma aula paralela
- O que uma meta-análise de 2024 encontrou sobre intervenções de matemática para estudantes autistas
Ao terminar, você consegue localizar em que etapa o aluno está, escolher a próxima atividade e adaptar a folha de matemática da turma para que ele participe da mesma aula.
O que a pesquisa diz sobre ensinar matemática a alunos autistas
Que funciona, quando o ensino é planejado. Uma meta-análise de 2024 reuniu 33 estudos e encontrou efeitos de moderados a grandes, em alunos, conteúdos, ambientes e professores diferentes. As abordagens que apareceram: várias representações do mesmo conceito, videomodelação, ensino baseado em esquemas, prática repetida e combinação de estratégias.
O trabalho é de Karal e Riccomini, publicado em 2024 na Education and Training in Autism and Developmental Disabilities. Os efeitos foram medidos em estudos de caso único, em que cada aluno é comparado com ele mesmo ao longo do tempo. Isso é comum na pesquisa em autismo e diz bastante sobre o que funciona, embora menos sobre para quem funciona melhor.
A revisão de Hume e colegas (2021), com 28 práticas com evidência para pessoas autistas, reforça dois ingredientes que aparecem em toda boa aula de matemática adaptada: suportes visuais e instrução direta, aquela com sequência planejada, exemplo do professor e muita troca com o aluno.
E existe o dever da escola. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015), no art. 28, prevê adaptações razoáveis para garantir ao estudante com deficiência pleno acesso ao currículo, e a Lei 12.764/2012 considera a pessoa autista pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. Matemática faz parte desse currículo.
Do concreto ao abstrato: a sequência que organiza as atividades de matemática para autistas
A sequência tem três passos: primeiro o objeto que se pega, depois a figura que representa o objeto, por fim o número e o sinal. Cada conteúdo novo passa pelos três, mesmo com alunos que já fazem conta. Quando o abstrato trava, volte um passo, em vez de repetir a mesma folha.
Exemplo com adição:
| Passo | O que a criança faz | Material |
|---|---|---|
| Concreto | Junta 3 carrinhos e 2 carrinhos num prato e conta todos | Brinquedos, tampinhas, blocos |
| Figura | Circula 3 bolinhas e 2 bolinhas e conta | Folha com desenhos simples |
| Número | Resolve 3 + 2 | Ficha com a conta |
O erro comum é parar no concreto para sempre ou pular direto para o número. A ideia é ir e voltar: o concreto dá sentido, o número dá velocidade.
Atividades de matemática para autistas, etapa por etapa
São seis etapas que se sobrepõem: pareamento, contagem, sequência, operações, matemática da rotina e problemas com texto. O aluno pode estar firme em operações e ainda precisar de muito apoio em problemas. Por isso a avaliação é por etapa, e não por série. Comece sempre um degrau abaixo do que ele já faz bem.
Pareamento e classificação
- Igual com igual. Dois potes, objetos idênticos para colocar no pote certo. Depois, foto com foto.
- Separar por cor, forma ou tamanho. Tampinhas em forma de gelo, blocos em bandejas. Uma regra de cada vez.
- Categorias. Tudo que é de comer, tudo que tem roda. É o pareamento virando pensamento matemático.
Pareamento é também a porta de entrada de muitas outras atividades para autistas organizadas por objetivo, porque ensina a olhar para o que é igual e o que é diferente.
Contagem com sentido
- Um para cada. Uma tampinha em cada espaço da forma de gelo, contando em voz alta ou com o adulto. Correspondência um a um vem antes de "saber contar".
- Pegue três. Cartão com o número e a quantidade em bolinhas. A criança pega da bandeja e coloca no prato. A conferência é visual.
- Contar o que importa. Quantos colegas vieram, quantos vagões tem o trem. O interesse vira o conteúdo.
Sequência e padrão
- Padrão com blocos. Vermelho, azul, vermelho, azul. O aluno continua. Depois, padrões com três elementos.
- Trilha numérica no chão. Fita adesiva com casas grandes. Andar para a frente é somar, voltar é tirar.
Operações
- Juntar nos pratos. Adição com objetos, depois com desenho, depois com número.
- O que sobrou. Subtração com objetos que "vão embora": o boneco come duas uvas, quantas ficaram?
- Reta numérica de mesa. Uma tira com números para mover o dedo ou uma peça. Ajuda quem já entendeu a operação, mas se perde na contagem.
Matemática da rotina
- Calendário da turma. Quantos dias faltam para o passeio. Contar os quadradinhos riscados.
- Cantina de brincadeira. Cédulas e moedas de brinquedo com preços redondos. É matemática com função, e prepara para a autonomia.
Problemas com texto
- Esquema do problema. Antes de calcular, o aluno identifica o tipo de problema: juntar, tirar ou comparar. Cada tipo tem um desenho fixo, com espaços para as partes e o total. É o ensino baseado em esquemas que aparece na meta-análise de Karal e Riccomini.
Na etapa dos problemas, a leitura pesa tanto quanto a conta. Se o aluno ainda decodifica sem compreender, as atividades de alfabetização para autistas ajudam a trabalhar compreensão junto.
Como adaptar a folha de matemática da turma para um aluno autista
Mantendo o conteúdo e mudando a forma. A conta é a mesma da turma, mas aparece em menor quantidade, com mais espaço, com material concreto ao lado ou com resposta de outro jeito. Assim o aluno participa da aula de todos, e a professora consegue comparar o progresso com o objetivo da série.
| O que trava | Adaptação possível |
|---|---|
| Folha cheia, muitas contas | Uma conta por linha, ou recortar a folha em tiras |
| Escrever o número à mão | Responder com cartões numerados ou carimbos |
| Instrução longa no topo | Um exemplo resolvido no início e uma palavra-chave |
| Problema com muitas informações | Destacar só os dados necessários e usar o esquema |
| Contagem que se perde | Reta numérica na mesa ou material concreto ao lado |
| Mudança de atividade sem aviso | Sequência visual da aula com "matemática" e o que vem depois |
Imagine uma turma de 4º ano. Caio, autista, sabe a tabuada de cor e acerta contas armadas rapidamente, mas não resolve nenhum problema com texto: lê, olha para a professora e escreve um número qualquer. Ela não volta para contas, que ele já domina. Introduz o esquema de "juntar" e "tirar" com dois desenhos fixos, e por duas semanas ele só identifica o tipo de problema, sem calcular. Depois, preenche as partes. Por último, faz a conta. A situação é hipotética, mas mostra o princípio: atacar a etapa que trava, não a que já funciona.
A rotina da aula também é matemática. Uma rotina visual com o que vem antes e depois da matemática reduz a ansiedade de quem precisa saber quanto tempo falta. Planejar adaptações assim, junto com o currículo da turma, é o que a pós-graduação em TEA da FASAMAR trabalha no módulo de inclusão escolar na prática. E as metas de matemática merecem estar no PEI para autismo, com o nível de ajuda registrado.
Quiz rápido
Teste rápido: matemática para alunos autistas
Um minuto de perguntinhas. Será que você termina sem errar nenhuma?
0 de 5 certas
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1. Qual é a ordem da sequência que organiza as atividades de matemática?
Primeiro o objeto que se pega, depois a figura que o representa, por fim o número e o sinal. Quando o abstrato trava, volta-se um passo.
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2. O que a meta-análise de Karal e Riccomini (2024) encontrou?
O estudo reuniu 33 pesquisas e identificou abordagens como várias representações, videomodelação, ensino baseado em esquemas e prática repetida, com efeitos de moderados a grandes.
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3. Caio sabe a tabuada, mas não resolve problemas com texto. Qual é o melhor próximo passo?
A etapa que trava é a do problema, não a da conta. O ensino baseado em esquemas ataca exatamente isso: tipo de problema primeiro, cálculo depois.
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4. Como avaliar em que ponto o aluno está em matemática?
Um aluno pode estar firme em operações e precisar de muito apoio em problemas. Avaliar por etapa mostra onde começar, um degrau abaixo do que ele já faz bem.
-
5. O aluno tem dificuldade para escrever números à mão. Que adaptação mantém o conteúdo?
Dificuldade de escrita não é dificuldade de raciocínio. Mudar a forma de responder mantém a mesma conta da turma e o mesmo objetivo.
O que fazer na próxima aula de matemática
Descubra em que etapa o aluno está, escolha uma atividade dessa etapa e uma da etapa seguinte, e passe cada conteúdo novo pelo concreto, pela figura e pelo número. Registre quanto de ajuda ele precisou. Em duas semanas, a ficha mostra se é hora de subir um degrau ou de mudar uma coisa no material.
Não confunda velocidade com compreensão, nem dificuldade de escrita com dificuldade de raciocínio. Um aluno que responde com cartões pode estar pensando tão bem quanto o que escreve rápido.
O essencial em quatro linhas
- Uma meta-análise de 2024 com 33 estudos encontrou efeitos de moderados a grandes em intervenções de matemática para estudantes autistas.
- Todo conteúdo novo passa pelo concreto, pela figura e pelo número, indo e voltando.
- Avalie por etapa, não por série, e comece um degrau abaixo do que o aluno já faz bem.
- Adapte a forma da folha da turma, mantendo o conteúdo e o objetivo da série.
O que a pesquisa ainda precisa responder sobre matemática e autismo
A revisão de Hume registrou aumento nos estudos sobre resultados acadêmicos, mas eles continuam poucos perto do total da pesquisa em autismo. E a maior parte das intervenções de matemática foi testada em estudos de caso único, com poucos alunos. Funciona, mas não se sabe bem para quem funciona melhor.
Ficam perguntas abertas: como levar estratégias testadas em atendimento individual para a sala com 30 alunos, como ensinar raciocínio de problemas mais complexos nos anos finais e como combinar materiais digitais com o concreto. Enquanto isso, a ficha de acompanhamento da professora é o melhor dado sobre aquele aluno.
Perguntas frequentes
Quais atividades de matemática para autistas usar na educação infantil?
Pareamento de objetos iguais, separação por cor e forma, correspondência um a um com forma de gelo, "pegue três" com cartão e contagem de coisas do interesse da criança. São as etapas de pareamento e contagem com sentido.
O que é a sequência do concreto ao abstrato na matemática?
É passar cada conteúdo por três passos: objeto que se pega, figura que representa o objeto e, por fim, número e sinal. Quando o abstrato trava, volta-se um passo em vez de repetir a mesma folha.
Como adaptar uma prova ou folha de matemática para aluno autista?
Mantenha o conteúdo da turma e mude a forma: menos contas por linha, exemplo resolvido no início, resposta com cartões numerados, material concreto ao lado e destaque só dos dados necessários no problema.
Meu aluno autista faz contas, mas não resolve problemas. Por quê?
Problema com texto exige leitura, compreensão e escolha da operação, não só cálculo. O ensino baseado em esquemas ajuda: primeiro ele identifica se o problema é de juntar, tirar ou comparar, depois preenche as partes e só então calcula.
Atividades de pareamento ajudam na matemática?
Sim. Pareamento ensina a perceber o que é igual e o que é diferente, base da classificação, da contagem e da comparação de quantidades. É a primeira etapa das atividades de matemática para autistas.
Núcleo de Pedagogia FASAMAR
Conteúdo do Núcleo de Pedagogia da FASAMAR, Faculdade São Marcos, instituição credenciada pelo MEC desde 2002 (Portaria nº 3.908). Responsável: Profa. Coorda. Susana Roman Blanco Pérez. Os artigos têm caráter educativo e não substituem a avaliação de um profissional habilitado.