Mãos de uma criança separam cartões coloridos em grupos ao lado de um quebra-cabeça montado pela metade, tarefa que exercita as funções executivas
TDAH

Funções executivas: o que são, quais são e como desenvolver na escola

O que são funções executivas, quais são as três centrais segundo a pesquisa e como treinar cada uma na rotina da sala de aula, com exemplos e uma tabela de consulta.

Neste artigo
  1. O que são funções executivas?
  2. Quais são as funções executivas?
  3. Por que as funções executivas importam tanto na escola?
  4. Como desenvolver funções executivas na escola?
  5. Atividades para treinar cada função executiva
  6. O que fazer com isso na próxima segunda-feira
  7. O essencial em quatro linhas
  8. O que a pesquisa ainda não sabe sobre funções executivas

A criança sabe a tabuada em casa e trava na prova. Começa a tarefa com vontade e larga no meio. Ouve três instruções e executa só a primeira. Na maior parte das vezes, o que falta ali não é inteligência nem interesse: são as funções executivas, o conjunto de habilidades mentais que organiza o que a gente pensa, sente e faz para chegar a um objetivo.

O que você vai encontrar aqui

  • A definição de funções executivas usada pela pesquisa, sem jargão
  • As três funções centrais, com o jeito como cada uma aparece na sala de aula
  • Seis princípios para desenvolver funções executivas na rotina escolar
  • Atividades prontas para cada função, que cabem em 10 minutos de aula

Ao terminar a leitura, você vai conseguir reconhecer qual função executiva está pesando numa dificuldade concreta do aluno e escolher uma atividade para treiná-la, sabendo o que esperar e o que não esperar dela.

O que são funções executivas?

Funções executivas são processos mentais que entram em ação quando não dá para seguir no automático. Servem para guardar uma informação enquanto se trabalha com ela, segurar um impulso, mudar de estratégia quando a primeira falhou e planejar os passos até uma meta. Toda aprendizagem escolar depende delas o tempo inteiro.

A definição mais citada é a da neurocientista Adele Diamond, na revisão Executive Functions, publicada na Annual Review of Psychology em 2013. Ela descreve as funções executivas como uma família de processos "de cima para baixo", necessários quando é preciso se concentrar e prestar atenção, e lembra um detalhe que todo professor conhece: usar essas funções dá trabalho. É mais fácil continuar fazendo o que já se fazia do que mudar.

O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, usa uma imagem boa para explicar a pais e colegas: as funções executivas funcionam como um sistema de controle de tráfego aéreo no cérebro, que administra várias pistas ao mesmo tempo. O centro também afirma que ninguém nasce com essas habilidades prontas. Nascemos com a capacidade de desenvolvê-las, por meio de interação e prática.

Quais são as funções executivas?

Há consenso na pesquisa sobre três funções executivas centrais: controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. A partir delas se constroem funções de ordem superior, como raciocínio, resolução de problemas e planejamento. Na prática da sala de aula, as três aparecem misturadas, mas vale a pena separar para saber onde intervir.

Controle inibitório

É a capacidade de não agir no primeiro impulso. Inclui o autocontrole (esperar a vez, não responder antes de terminar a pergunta) e o controle de interferência, que é manter a atenção na tarefa mesmo com conversa no fundo da sala. Quando falha, o aluno chuta a resposta antes de ler o enunciado inteiro.

Memória de trabalho

É segurar uma informação na cabeça e fazer algo com ela. Diamond diferencia memória de trabalho de memória de curto prazo: guardar um número de telefone é curto prazo; somar dois números de cabeça, mantendo o "vai um", é memória de trabalho. Copiar do quadro, seguir uma instrução de três passos e entender uma frase longa dependem dela.

Flexibilidade cognitiva

É mudar de regra, de ponto de vista ou de caminho. O aluno que só sabe resolver a conta de um jeito e trava quando o problema vem escrito de outra forma está mostrando pouca flexibilidade. Ela também aparece no social: aceitar que o colega propôs uma regra diferente para a brincadeira.

Função O que faz Como aparece quando falha O que costuma ajudar
Controle inibitório Segura o impulso e filtra distrações Responde sem ler, interrompe, perde o foco com qualquer barulho Tempo de espera combinado, jogos de "parar e começar"
Memória de trabalho Guarda e manipula informação Esquece o segundo passo, se perde na cópia, não lembra o começo do texto Instrução escrita e curta, checklist, divisão em etapas
Flexibilidade cognitiva Troca de regra e de estratégia Insiste no mesmo erro, se irrita com mudanças, só aceita um caminho Resolver o mesmo problema de dois jeitos, jogos de troca de regra
Planejamento (ordem superior) Organiza passos até a meta Não sabe por onde começar, deixa tudo para o fim Plano antes da tarefa, revisão depois
Ilustração de cabeça de perfil com três engrenagens coloridas girando juntas, imagem das funções executivas trabalhando em conjunto
Controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva funcionam juntos, como engrenagens.

Por que as funções executivas importam tanto na escola?

Porque elas preveem desempenho escolar com mais força do que se imagina. A revisão de Diamond reúne estudos mostrando que as funções executivas pesam mais na prontidão para a escola do que o QI ou a leitura e a matemática de entrada, e que continuam prevendo competência em leitura e matemática ao longo de toda a escolaridade.

O dado que mais impressiona vem de fora da escola. Um estudo da Nova Zelândia publicado na PNAS em 2011, coordenado por Terrie Moffitt, acompanhou 1.000 crianças do nascimento aos 32 anos. O nível de autocontrole na infância previu saúde física, dependência de substâncias, situação financeira e envolvimento com crimes na vida adulta, e esse efeito se manteve mesmo quando os pesquisadores descontaram inteligência e classe social.

Há um alerta importante na mesma revisão de Diamond. As funções executivas são as primeiras a sofrer quando a pessoa está estressada, triste, sozinha, dormindo mal ou sem atividade física. A autora escreve que qualquer um desses fatores pode fazer alguém parecer ter um transtorno das funções executivas, como o TDAH, sem ter. Por isso o professor observa e registra, e quem avalia é a equipe de saúde. O texto sobre sinais de TDAH na criança detalha esse cuidado.

Como desenvolver funções executivas na escola?

Com prática frequente e desafio que cresce aos poucos. Uma revisão de Adele Diamond e Kathleen Lee publicada na Science em 2011 analisou programas para crianças de 4 a 12 anos e encontrou ganhos com jogos sem computador, treino computadorizado, exercício aeróbico, artes marciais, ioga, atenção plena e currículos escolares inteiros. O ponto comum era a repetição.

A mesma revisão, disponível no PubMed Central, traz achados que viram regras práticas para a sala:

  1. Pratique todo dia, não num módulo. Os autores afirmam que os currículos precisam trabalhar funções executivas ao longo do dia, e que mesmo a melhor atividade, feita raramente, rende pouco.
  2. Aumente a dificuldade. Grupos que jogaram o mesmo jogo sem aumento de dificuldade não tiveram ganho. Quando a criança dominar, mude uma regra.
  3. Quem tem mais dificuldade ganha mais. Crianças com funções executivas mais frágeis, incluindo crianças com TDAH, foram as que mais melhoraram. Não deixe esses alunos fora da atividade "porque atrapalham".
  4. Professor comum consegue. Os estudos mostram melhora já aos 4 e 5 anos, com professores regulares, em salas regulares, sem equipamento caro, desde que tenham formação e apoio.
  5. Corpo e emoção contam. Os autores sugerem que treinar só a cognição pode render menos do que cuidar junto do desenvolvimento emocional, social e físico, como fazem os currículos que deram resultado.
  6. Não espere milagre de aplicativo. Uma metanálise de Monika Melby-Lervåg e colegas, com 87 publicações e 145 comparações, concluiu que treinos computadorizados de memória de trabalho melhoram a tarefa treinada, mas não mostraram ganho confiável em leitura, compreensão ou aritmética.

O Brasil também produz pesquisa nessa linha. Pesquisadoras brasileiras publicaram em 2017, na revista Dementia & Neuropsychologia, o Programa de Estimulação Neuropsicológica da Cognição em Escolares, pensado para 3º e 4º anos, mediado pelo professor e encaixado no currículo, com módulos de planejamento, inibição, memória de trabalho e flexibilidade. O artigo valida o conteúdo do programa; a eficácia ficou para estudos seguintes.

Transformar esses princípios em plano de aula é o que a pós em TDAH da FASAMAR trabalha no módulo de funções executivas na prática.

Atividades para treinar cada função executiva

Atividades curtas, repetidas e com regra que muda funcionam melhor do que uma oficina longa no fim do bimestre. A lista abaixo usa propostas do guia de atividades do centro de Harvard e brincadeiras conhecidas no Brasil. Cada uma cabe em 5 a 10 minutos e pode ganhar dificuldade quando a turma dominar.

Controle inibitório

  • Seu mestre mandou com regra invertida: a turma faz o contrário do que o mestre mostra.
  • Estátua com posição sorteada: quando a música para, todos copiam o desenho de uma figura no quadro.
  • Bingo do oposto: o professor fala "dia" e a criança marca a figura da noite.

Memória de trabalho

  • Fui à feira e comprei: cada criança repete a lista e acrescenta um item. Com crianças mais velhas, a lista tem de sair em ordem alfabética.
  • Instrução em camadas: hoje dois passos, na semana seguinte três, sempre ditos uma vez só.
  • Cálculo mental com uma regra extra ("some 3 e depois tire 1").

Flexibilidade cognitiva

  • Classificar o mesmo material por cor, depois por forma, depois por tamanho, sem aviso prévio.
  • Jogos de carta que trocam o critério, como Uno.
  • Mesmo problema, dois caminhos: a turma só entrega quando tiver resolvido de duas formas.

Planejamento

  • Antes de brincar ou de começar um trabalho, cada grupo diz o plano em voz alta. No fim, confere se seguiu.

Imagine uma turma de 2º ano em que boa parte das crianças se perde depois da segunda instrução. Em vez de repetir mais alto, a professora escreve os passos no quadro com um ícone para cada um, apaga o passo concluído e, duas vezes por dia, joga três minutos de Fui à feira. É apoio externo para a memória de trabalho somado a treino dela. A rotina visual segue a mesma lógica para o dia inteiro.

Quer mais ideias, separadas por idade e com opções com e sem tela? O guia de jogos para funções executivas traz uma lista completa. E, para alunos com diagnóstico, as atividades para crianças com TDAH mostram como adaptar cada proposta.

Quiz rápido

Teste rápido: você reconhece cada função executiva?

Um minuto de perguntinhas. Será que você termina sem errar nenhuma?

0 de 5 certas

  1. 1. Um aluno responde antes de terminar de ler o enunciado. Qual função executiva está pesando mais?

  2. 2. Somar dois números de cabeça mantendo o "vai um" depende principalmente de qual função?

  3. 3. Segundo a revisão de Diamond e Lee (2011), o que acontece quando a criança joga sempre no mesmo nível de dificuldade?

  4. 4. Uma criança com sono ruim e muito estresse em casa passa a esquecer tarefas e se distrair. O que o professor deve fazer?

  5. 5. O que a metanálise de Melby-Lervåg e colegas concluiu sobre aplicativos de treino de memória de trabalho?

O que fazer com isso na próxima segunda-feira

Escolha um aluno e uma dificuldade concreta. Pergunte qual função executiva está pesando mais: é impulso, é esquecer o passo ou é não conseguir mudar de estratégia? Depois escolha uma atividade curta para a turma inteira, faça todos os dias por duas semanas e aumente a dificuldade quando ficar fácil.

Ao mesmo tempo, mude o ambiente para não cobrar da criança o que ela ainda não consegue sozinha: instrução escrita, tarefas em etapas, aviso antes das transições. Treinar a função e apoiar a função são duas frentes, e as duas valem.

O essencial em quatro linhas

  • Funções executivas são as habilidades que nos fazem pensar antes de agir, guardar informação enquanto trabalhamos e mudar de plano.
  • As três centrais são controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva; planejamento e resolução de problemas se apoiam nelas.
  • Elas se desenvolvem com prática diária e desafio crescente, e quem tem mais dificuldade costuma ganhar mais.
  • Estresse, sono ruim e solidão derrubam as funções executivas; o professor observa e registra, quem avalia é a equipe de saúde.

O que a pesquisa ainda não sabe sobre funções executivas

A grande pergunta em aberto é a transferência. Treinar uma função melhora aquela tarefa, mas os estudos divergem sobre quanto desse ganho chega à leitura, à matemática e ao comportamento. Diamond e Lee observam que a transferência costuma ser estreita, e a metanálise de 2016 reforça a cautela com programas de computador.

Outra frente é descobrir quais atividades ainda não estudadas também funcionam. As próprias autoras citam música e esportes como candidatos prováveis. E falta saber por quanto tempo os ganhos se mantêm quando o programa acaba: alguns estudos acompanharam seis meses, poucos foram além disso.

Perguntas frequentes

O que são funções executivas, em palavras simples?

São as habilidades mentais que usamos quando não dá para agir no automático: segurar um impulso, guardar uma informação enquanto trabalhamos com ela e mudar de estratégia. Elas organizam pensamento, emoção e comportamento para chegar a um objetivo.

Quais são as três funções executivas principais?

Controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. É a divisão aceita pela maior parte da pesquisa, resumida por Adele Diamond em 2013. Planejamento, raciocínio e resolução de problemas são funções de ordem superior construídas a partir dessas três.

Dá para desenvolver funções executivas na escola?

Dá. A revisão de Diamond e Lee, de 2011, mostrou ganhos em crianças de 4 a 12 anos com jogos, exercício, ioga e currículos aplicados por professores comuns em salas comuns. O segredo é praticar todo dia e aumentar a dificuldade aos poucos.

Funções executivas fracas significam que a criança tem TDAH?

Não necessariamente. Estresse, tristeza, solidão, sono ruim e falta de atividade física também prejudicam as funções executivas e podem imitar o quadro. O professor observa, registra e encaminha; o diagnóstico é feito por médico ou equipe habilitada.

Aplicativos de treino cerebral desenvolvem funções executivas?

Melhoram a tarefa treinada, mas as evidências de ganho em leitura, compreensão e matemática são fracas. Uma metanálise com 145 comparações não encontrou transferência confiável. Jogos com regras, brincadeiras de movimento e prática na rotina são opções mais seguras.

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Núcleo de Pedagogia FASAMAR

Conteúdo do Núcleo de Pedagogia da FASAMAR, Faculdade São Marcos, instituição credenciada pelo MEC desde 2002 (Portaria nº 3.908). Responsável: Profa. Coorda. Susana Roman Blanco Pérez. Os artigos têm caráter educativo e não substituem a avaliação de um profissional habilitado.

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