Duas crianças jogam dama e jogo da memória numa mesa de madeira com cartas espalhadas, exemplo de jogos para funções executivas em casa ou na escola
TDAH

Jogos para funções executivas: ideias para sala de aula e para casa

Jogos para funções executivas separados por função e por idade, com e sem tela, e o critério que diferencia um jogo que treina de um jogo que só distrai.

Neste artigo
  1. Jogos para funções executivas funcionam mesmo?
  2. O que faz um jogo treinar funções executivas?
  3. Jogos para controle inibitório
  4. Jogos para memória de trabalho
  5. Jogos para flexibilidade cognitiva
  6. Jogos para planejamento e estratégia
  7. Jogos digitais ajudam a desenvolver funções executivas?
  8. Como usar jogos para funções executivas na rotina da turma
  9. Como escolher o jogo de amanhã
  10. O essencial em quatro linhas
  11. O que ainda falta saber sobre jogos e funções executivas

Quase toda turma tem um baralho, um jogo da memória e uma dama esquecidos no armário. Com a escolha certa e algumas regras a mais, esse material vira treino de atenção, autocontrole e planejamento. É isso que separa jogos para funções executivas de jogos que só ocupam o tempo: não é o jogo, é como ele é usado.

O que você vai encontrar aqui

  • Cinco perguntas para saber se um jogo treina mesmo funções executivas
  • Jogos sem tela separados por função: inibição, memória de trabalho, flexibilidade e planejamento
  • Uma tabela por faixa etária, da educação infantil ao ensino médio
  • O que a pesquisa diz sobre jogos digitais e aplicativos de treino cerebral

Ao final, você vai conseguir montar uma rotina de jogos de 10 minutos para a sua turma ou para casa, escolhendo cada jogo pela função que quer treinar e sabendo quando aumentar a dificuldade.

Jogos para funções executivas funcionam mesmo?

Funcionam, com duas condições: precisam ser jogados com frequência e ficar mais difíceis conforme a criança melhora. Uma revisão publicada na Science em 2011 por Adele Diamond e Kathleen Lee incluiu jogos sem computador entre as abordagens que melhoraram funções executivas em crianças de 4 a 12 anos, sempre com prática repetida.

A revisão, aberta no PubMed Central, traz um detalhe que muda a forma de jogar: grupos que praticaram o mesmo jogo sem aumento de dificuldade não tiveram ganho. Jogo que a criança já domina vira só diversão, o que também é bom, mas não treina.

O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, publicou um guia de atividades por idade que serve de base para boa parte das sugestões deste texto. O guia recomenda escolher jogos exigentes, mas não difíceis demais para cada criança, e diminuir o papel do adulto assim que possível. Quando as próprias crianças lembram e fazem valer as regras, o desafio é maior.

Se você quer revisar o que são memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade cognitiva antes de seguir, o texto sobre funções executivas explica cada uma com exemplos de sala.

O que faz um jogo treinar funções executivas?

Um jogo treina funções executivas quando obriga a criança a guardar uma regra, segurar um impulso ou trocar de estratégia, e quando dá para deixá-lo mais difícil. Jogo de pura sorte, em que ninguém precisa decidir nada, diverte, mas exige pouco. Antes de escolher, vale passar o jogo por cinco perguntas.

  1. Tem regra para lembrar? Quanto mais regras ativas ao mesmo tempo, mais memória de trabalho.
  2. Tem um impulso para segurar? Esperar a vez, não se mexer, não bater na carta errada.
  3. A regra pode mudar no meio? Troca de regra é treino de flexibilidade.
  4. Dá para subir o nível? Mais cartas, mais itens, menos tempo, regra extra.
  5. A criança consegue jogar sem o adulto arbitrar tudo? Se sim, ela está regulando o próprio comportamento.

Se o jogo passa em três das cinco, já serve.

Jogos para controle inibitório

São jogos em que o corpo quer fazer uma coisa e a regra pede outra. Funcionam bem no começo da aula, depois do recreio ou antes de uma tarefa que exige calma, porque treinam o parar e o começar. A maior parte não precisa de material nenhum e cabe em cinco minutos.

  • Estátua com música. Quando a música para, todos congelam. Para subir o nível, o guia de Harvard sugere mostrar uma figura com uma posição que todos precisam copiar ao parar.
  • Batatinha frita 1, 2, 3. Só pode andar enquanto o pegador está de costas.
  • Seu mestre mandou. A versão difícil é "faça o que eu digo, não o que eu faço".
  • Morto-vivo com regra trocada. "Morto" passa a significar ficar em pé e "vivo", agachar.
  • Bingo do oposto. O professor diz "dia" e a criança marca a figura da noite.
  • Tapa na carta. Cartas viradas uma a uma; só se bate quando aparece a carta combinada.
Crianças vistas de costas param como estátuas no meio da sala enquanto a professora segura uma caixa de som, um dos jogos para funções executivas
Na brincadeira de estátua, segurar o movimento quando a música para treina o controle inibitório.

Jogos para memória de trabalho

Aqui a criança precisa segurar informação na cabeça e usar enquanto joga. Jogos de cartas, cantigas cumulativas e brincadeiras de lista são os clássicos. Dá para graduar com facilidade: mais pares, mais itens, mais etapas na sequência, ou uma regra extra sobre a ordem.

  • Jogo da memória. Comece com 6 pares e chegue a 20.
  • Fui à feira e comprei. Cada um repete a lista e acrescenta um item. Para os maiores, a lista sai em ordem alfabética.
  • Mico e jogo de famílias. No de famílias, ganha quem lembra quem pediu qual carta; no mico, quem acompanha para onde a carta foi passada.
  • Palmas e adoleta. Sequências de palmas que vão ficando mais longas treinam memória de trabalho e inibição, e o guia de Harvard lembra que esse tipo de brincadeira atravessa gerações e culturas.
  • Cantigas cumulativas e cânone. Cantar em cânone obriga a segurar a própria parte enquanto o outro grupo canta outra.

Jogos para flexibilidade cognitiva

Flexibilidade é mudar de regra, de critério ou de caminho sem travar. Os melhores jogos para isso trocam o critério no meio da partida ou pedem que a criança descubra uma regra escondida. Servem muito para o aluno que se irrita com qualquer mudança.

  • Uno. A carta pode ser jogada por cor ou por número, e o critério muda a cada rodada.
  • Classifica e troca. Separar blocos lógicos por cor e, sem aviso, mudar para forma ou tamanho.
  • Descubra a regra. Uma pessoa separa peças por uma regra secreta e as outras tentam adivinhar.
  • Adedanha (stop). Cada rodada mistura letra nova com categorias diferentes.
  • Cara a cara e 20 perguntas. Cada resposta elimina hipóteses e obriga a reorganizar o raciocínio.

Jogos para planejamento e estratégia

Jogos de tabuleiro com estratégia juntam as três funções: a criança mantém um plano para várias jogadas, considera regras diferentes para cada peça e ajusta a estratégia quando o adversário muda. É assim que o guia de Harvard descreve jogos como dama, batalha naval, mancala e os jogos de percurso da família do ludo.

Faixa etária Jogos sugeridos Função mais exigida
3 a 5 anos Estátua, bingo do oposto, quebra-cabeças cada vez maiores, classificar e trocar a regra Inibição e flexibilidade
5 a 7 anos Jogo da memória, mico, Uno, batatinha frita, dama, ludo, batalha naval Memória de trabalho e inibição
7 a 12 anos Xadrez, buraco e outros jogos de cartas com estratégia, palavras cruzadas, sudoku, cubo mágico, esportes coletivos, pular corda com cantiga Planejamento e memória de trabalho
Adolescentes Jogos de estratégia longos, organizar um evento ou projeto real com metas e prazos Planejamento e automonitoramento

Para adolescentes, o guia de Harvard sai do tabuleiro e propõe metas reais: escolher algo que o jovem quer conquistar, dividir em passos e acompanhar o progresso. Planejar um campeonato da turma serve.

Jogos digitais ajudam a desenvolver funções executivas?

Podem ajudar na tarefa treinada, mas raramente vão além dela. Diamond e Lee descrevem ganhos de memória de trabalho com treino computadorizado que fica mais difícil a cada fase, com transferência estreita. Uma metanálise maior, com 145 comparações, não encontrou ganho confiável em leitura, compreensão ou aritmética.

A metanálise é de Monika Melby-Lervåg, Thomas Redick e Charles Hulme, publicada em 2016 e disponível no PubMed Central. Os autores concluem que esses programas produzem efeitos de curto prazo, específicos do treino, que não se generalizam para habilidades do mundo real.

Isso não transforma toda tela em vilã. O guia de Harvard cita jogos de construção e mundos imaginários, como Minecraft, que exigem guardar muita informação e planejar metas próprias. O mesmo guia pede atenção ao conteúdo e a limites de tempo razoáveis. Na escola, a regra prática é simples: jogo digital complementa, não substitui o jogo com regra, corpo e outra pessoa do lado.

Como usar jogos para funções executivas na rotina da turma

O que mais pesa é a frequência: 10 minutos, três ou quatro vezes por semana, rendem mais do que uma tarde de jogos por mês. Escolha um jogo por função, repita até a turma dominar, suba o nível e só então troque. No fim, pergunte o que ajudou a lembrar ou a esperar.

Imagine uma turma de 1º ano com muita agitação depois do recreio. A professora monta a semana assim:

Dia Jogo Como sobe o nível na semana seguinte
Segunda Estátua com figura Figura com duas partes do corpo
Terça Fui à feira (em grupos de 5) Grupos de 7
Quarta Classifica e troca com blocos lógicos Troca de regra sem aviso
Quinta Batatinha frita Dois pegadores com regras diferentes
Sexta Jogo da memória em duplas De 8 para 12 pares

Um cuidado: evite jogos em que quem erra sai. O aluno mais impulsivo é sempre o primeiro a sair e acaba treinando menos justamente quem mais precisa. A revisão de Diamond e Lee mostra que crianças com funções executivas mais frágeis, incluindo crianças com TDAH, foram as que mais ganharam. No morto-vivo, quem erra pode virar ajudante do comandante e continuar no jogo.

Para alunos com TDAH, as atividades para crianças com TDAH mostram como adaptar o tempo e o ambiente, e o texto sobre aluno com TDAH em sala de aula ajuda a encaixar o jogo no restante do dia. Planejar esse tipo de intervenção com intenção é parte do que a pós em TDAH da FASAMAR trabalha no módulo de funções executivas na prática.

Enquete

Qual tipo de jogo mais funciona com a sua turma ou com o seu filho?

Pessoas interessantes sempre respondem essa. E você, de que lado está?

Quando você usa jogos para treinar atenção e autocontrole, qual tipo dá mais certo aí?

Como escolher o jogo de amanhã

Comece pela dificuldade que mais aparece na sua turma. Muito impulso? Jogo de parar e começar. Muita gente se perdendo nas instruções? Jogo de lista ou de memória. Alunos que travam quando algo muda? Jogo de troca de regra. Escolha um, jogue todo dia por duas semanas e suba o nível quando ficar fácil.

E deixe a turma arbitrar. Quando as crianças lembram as regras e cobram umas das outras, o treino é delas, não seu.

O essencial em quatro linhas

  • Jogo treina funções executivas quando exige lembrar regra, segurar impulso ou trocar de estratégia, e quando dá para ficar mais difícil.
  • A frequência pesa mais que a duração: 10 minutos, várias vezes por semana.
  • Crianças com mais dificuldade costumam ganhar mais, então não as tire do jogo quando erram.
  • Jogos digitais melhoram a tarefa treinada, mas há pouca evidência de ganho em leitura e matemática.

O que ainda falta saber sobre jogos e funções executivas

A principal dúvida continua sendo a transferência: quanto do que a criança melhora no jogo aparece na leitura, na matemática e no comportamento em sala. Os estudos com jogos sem tela costumam ser pequenos, e ainda há pouca comparação direta entre um tipo de jogo e outro.

Há também interesse em jogos digitais desenhados por pesquisadores, que ajustam a dificuldade sozinhos e misturam várias funções ao mesmo tempo. Diamond e Lee observam que os ganhos mais amplos vieram de programas que trabalham várias funções ao mesmo tempo, como artes marciais e currículos escolares. Se jogos digitais que misturam funções vão chegar ao mesmo resultado, ainda é pergunta aberta.

Perguntas frequentes

Quais jogos ajudam a desenvolver funções executivas?

Jogos com regra para lembrar, impulso para segurar e critério que muda. Bons exemplos são estátua, batatinha frita, seu mestre mandou, jogo da memória, Uno, dama, ludo, batalha naval e xadrez, cada um com uma função mais exigida.

Qual jogo treina o controle inibitório?

Os que pedem para parar ou fazer o contrário do impulso: estátua, batatinha frita 1, 2, 3, seu mestre mandou com regra invertida, morto-vivo com regra trocada e o bingo do oposto. Todos cabem em cinco minutos e não precisam de material.

Jogos no celular desenvolvem funções executivas?

Melhoram a tarefa treinada, mas a metanálise de Melby-Lervåg, Redick e Hulme, de 2016, não encontrou ganho confiável em leitura, compreensão ou aritmética. Na escola, o jogo digital complementa, mas não substitui o jogo com regras e outras pessoas.

Quanto tempo de jogo por semana faz diferença?

A pesquisa não fixa um número, mas mostra que a repetição é o que gera ganho. Uma rotina de 10 minutos, três ou quatro vezes por semana, com aumento de dificuldade quando a turma dominar, rende mais que sessões longas e raras.

Como incluir o aluno com TDAH nos jogos sem que ele seja eliminado sempre?

Troque a eliminação por outra função no jogo, como ajudante do comandante ou juiz. Crianças com funções executivas mais frágeis, incluindo crianças com TDAH, foram as que mais ganharam nos estudos revisados por Diamond e Lee, então mantê-las jogando faz diferença.

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Núcleo de Pedagogia FASAMAR

Conteúdo do Núcleo de Pedagogia da FASAMAR, Faculdade São Marcos, instituição credenciada pelo MEC desde 2002 (Portaria nº 3.908). Responsável: Profa. Coorda. Susana Roman Blanco Pérez. Os artigos têm caráter educativo e não substituem a avaliação de um profissional habilitado.

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